Os olhos daquele servo estavam completamente brancos. Eles se aproximou de mim, segurando-me pelos cabelos o que fez com que meu ódio aumentasse. Pensei em Bernardo. O que havia acontecido com ele, afinal?
- Sabe seu amiguinho? - ele puxou mais meu cabelo, me fazendo olhá-lo - Se você quer o seu amor, isso mesmo seu amor, não amiguinho. Bom, se quiser que ele permaneça vivo, terá de fazer o que eu lhe mandar.
- Nunca... sabe o que quer dizer essa palavra? - disse entre dentes.
- Então ele será morto daqui a pouquinho. Há outros com ele neste exato momento. E ele irá morrer, queridinha - ele disse meio que sorrindo - você terá de escolher... ou você, ou ele.
Eu não podia deixá-lo matar a única pessoa que me sobrara. Então eu me rendi. Deixei que ele falasse o que eu deveria fazer.
- É simples, você só tem que desistir de ser um anjo. - ele falava como se fosse algo fácil. - Ou então seu amor irá morrer.
- O que eu devo fazer para desistir? - disse sem nem ao menos pensar. E ele pareceu satisfeito com isso.
- Apenas crave isto - ele me deu uma estaca afiada de prata - e diga que desiste. Se estiver falando da boca pra fora não irá funcionar e Bernardo irá morrer. Pense bem.
Passou-se um longo minuto em silencio, nenhuma voz. Nada, apenas o barulho do mar abaixo de mim. Pensei em Bernardo, em tudo o que ele havia feito por mim, quantas guerras ele já deve ter passado naquelas semanas. Fora que, de que adianta uma vida eterna sem alguém que lhe acompanhe e lhe dê forças para continuar?
- Eu desisto. De tudo. - cravei a estaca de prata em meu peito, deixei ecoar um grito de dor.
Foi quando, ao desistir de minha descendencia angelical e me lancei a morte, onde se encontrava todos aqueles, aos menos a maioria deles, que amei. Foi no mesmo instante em que vi, sim eu vi aquele que todos temem um dia virar servo. Eu vi o mal roubar de mim o resto de sentimentos que eu tinha, sentimentos únicos e verdadeiramente puros. Por mais que eu tivesse desistido da imortalidade angelical, eu não havia morrido. Eu voltei ao penhasco só que agora Bernardo estava lá. Ele me olhava com ódio. Sentia-me fria por dentro e o olhar dele fez com que eu sentisse nojo de mim mesma. Eu ainda estava imóvel no chão, não encontrava forças para me mexer, minha respiração ofegante. Ele se aproximou olhando meus olhos e percebi que se surpreendeu quando retribuí o olhar.
- Por que fez isso? - ele segurou meu rosto - Por que quis me deixar?
Tentei falar que não queria e que esse era o único meio de salvá-lo. Fechei meus olhos, sem força. Senti minha respiração parar por segundos.
Não sei como, mas consegui voltar. Eu voltei ao penhasco, viva novamente. Fraca, porém viva. Olhei Bernardo, os olhos de brancos passaram a um vermelho. Como se ele estivesse chorando o dia todo. De seu rosto rolavam lágrimas, lágrimas de sangue. Uma mistura estranha e dolorosa. Ele estava com os olhos fechados, a estaca em sua mão, deixada de lado. Ele se mantinha de joelhos, curvado sobre mim.
- Eu não queria e não posso te deixar. - eu disse baixinho enquanto colocava minhas mãos em seu rosto e secava as lágrimas, que queimavam minha pele ao tocá-las.
Ele me olhou, os olhos arregalados de sobressalto. Eu senti vontade de rir ao ver a expressão dele. Era ao mesmo tempo feliz e angustiada. Mil coisas passaram por sua mente, milhares de coisas que ele queria falar. Apenas tapei a boca dele quando ele ia começar a falar e continuei.
- Eu fui boba de fazer isso comigo. Devia ter pensado bem, mas eu não podia deixar você morrer... Ele... - parei um instante, olhando envolta - Onde ele está?
- Ele foi mandado para outro canto. Você foi forte e resistiu, era para você estar morta, mas graças a...A... - ele suspirou - graças a Deus, você está viva.
Ele segurou minha mão e deu um beijo na mesma.
Voltamos pra casa, então ele me contava tudo o que precisou fazer para estar no penhasco na hora certa. Quando se é um servo você tem de aprender a se transportar rápido. Aprendi algumas coisas durante algumas horas até chegar em casa.
- Promete uma coisa? - ele disse, me olhando. E deu um beijo em minha testa.
- O que você quiser. - eu me ajeitei na cama para poder olhá-lo.
- Promete que jamais vai fazer as coisas assim, que vai pensar e falar comigo antes de tentar quase se matar. Mesmo que seja para me salvar. - ele passou a ponta dos dedos em meu rosto. - Promete que vai estar eternamente aqui.
- É mais de uma coisa - sorri e ele retribuiu logo ficando sério. Os olhos suplicando a verdade ao olhar os meus. e continuei. - Eternamente estarei aqui, eu prometo.
Ele sorriu e seguimos assim, um dia após o outro. Sem medo de enfrentar qualquer coisa pelo bem do outro. Afinal, você tem de ter um motivo para lutar e vencer suas guerras.

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