quinta-feira, 10 de junho de 2010

Asas fracas de um anjo ferido. (ultima parte)

Os olhos daquele servo estavam completamente brancos. Eles se aproximou de mim, segurando-me pelos cabelos o que fez com que meu ódio aumentasse. Pensei em Bernardo. O que havia acontecido com ele, afinal?

- Sabe seu amiguinho? - ele puxou mais meu cabelo, me fazendo olhá-lo - Se você quer o seu amor, isso mesmo seu amor, não amiguinho. Bom, se quiser que ele permaneça vivo, terá de fazer o que eu lhe mandar.
- Nunca... sabe o que quer dizer essa palavra? - disse entre dentes.
- Então ele será morto daqui a pouquinho. Há outros com ele neste exato momento. E ele irá morrer, queridinha - ele disse meio que sorrindo - você terá de escolher... ou você, ou ele.

Eu não podia deixá-lo matar a única pessoa que me sobrara. Então eu me rendi. Deixei que ele falasse o que eu deveria fazer.
- É simples, você só tem que desistir de ser um anjo. - ele falava como se fosse algo fácil. - Ou então seu amor irá morrer.
- O que eu devo fazer para desistir? - disse sem nem ao menos pensar. E ele pareceu satisfeito com isso.
- Apenas crave isto - ele me deu uma estaca afiada de prata - e diga que desiste. Se estiver falando da boca pra fora não irá funcionar e Bernardo irá morrer. Pense bem.
Passou-se um longo minuto em silencio, nenhuma voz. Nada, apenas o barulho do mar abaixo de mim. Pensei em Bernardo, em tudo o que ele havia feito por mim, quantas guerras ele já deve ter passado naquelas semanas. Fora que, de que adianta uma vida eterna sem alguém que lhe acompanhe e lhe dê forças para continuar?
- Eu desisto. De tudo. - cravei a estaca de prata em meu peito, deixei ecoar um grito de dor.

Foi quando, ao desistir de minha descendencia angelical  e me lancei a morte, onde se encontrava todos aqueles, aos menos a maioria deles, que amei. Foi no mesmo instante em que vi, sim eu vi aquele que todos temem um dia virar servo. Eu vi o mal roubar de mim o resto de sentimentos que eu tinha, sentimentos únicos e verdadeiramente puros. Por mais que eu tivesse desistido da imortalidade angelical, eu não havia morrido. Eu voltei ao penhasco só que agora Bernardo estava lá. Ele me olhava com ódio. Sentia-me fria por dentro e o olhar dele fez com que eu sentisse nojo de mim mesma. Eu ainda estava imóvel no chão, não encontrava forças para me mexer, minha respiração ofegante. Ele se aproximou olhando meus olhos e percebi que se surpreendeu quando retribuí o olhar.

- Por que fez isso? - ele segurou meu rosto - Por que quis me deixar? 
Tentei falar que não queria e que esse era o único meio de salvá-lo. Fechei meus olhos, sem força. Senti minha respiração parar por segundos. 
Não sei como, mas consegui voltar. Eu voltei ao penhasco, viva novamente. Fraca, porém viva. Olhei Bernardo, os olhos de brancos passaram a um vermelho. Como se ele estivesse chorando o dia todo. De seu rosto rolavam lágrimas, lágrimas de sangue. Uma mistura estranha e dolorosa. Ele estava com os olhos fechados, a estaca em sua mão, deixada de lado. Ele se mantinha de joelhos, curvado sobre mim.

- Eu não queria e não posso te deixar. - eu disse baixinho enquanto colocava minhas mãos em seu rosto e secava as lágrimas, que queimavam minha pele ao tocá-las.
Ele me olhou, os olhos arregalados de sobressalto. Eu senti vontade de rir ao ver a expressão dele. Era ao mesmo tempo feliz e angustiada. Mil coisas passaram por sua mente, milhares de coisas que ele queria falar. Apenas tapei a boca dele quando ele ia começar a falar e continuei.

- Eu fui boba de fazer isso comigo. Devia ter pensado bem, mas eu não podia deixar você morrer... Ele... - parei um instante, olhando envolta - Onde ele está?
- Ele foi mandado para outro canto. Você foi forte e resistiu, era para você estar morta, mas graças a...A... - ele suspirou - graças a Deus, você está viva.

Ele segurou minha mão e deu um beijo na mesma. 
Voltamos pra casa, então ele me contava tudo o que precisou fazer para estar no penhasco na hora certa. Quando se é um servo você tem de aprender a se transportar rápido. Aprendi algumas coisas durante algumas horas até chegar em casa.

- Promete uma coisa? - ele disse, me olhando. E deu um beijo em minha testa.
- O que você quiser. - eu me ajeitei na cama para poder olhá-lo.
- Promete que jamais vai fazer as coisas assim, que vai pensar e falar comigo antes de tentar quase se matar. Mesmo que seja para me salvar. - ele passou a ponta dos dedos em meu rosto. - Promete que vai estar eternamente aqui.
- É mais de uma coisa - sorri e ele retribuiu logo ficando sério. Os olhos suplicando a verdade ao olhar os meus. e continuei. - Eternamente estarei aqui, eu prometo.

Ele sorriu e seguimos assim, um dia após o outro. Sem medo de enfrentar qualquer coisa pelo bem do outro. Afinal, você tem de ter um motivo para lutar e vencer suas guerras.

Asas fracas de um anjo ferido. (terceira parte)

A cada dia que se passava, todo aquele novo mundo para mim se tornava fácil. Eu entendia as coisas, os problemas das pessoas ao meu redor. Os meus futuros problemas. Bernardo, agora, aparecia sempre que eu estava sozinha. Meu quarto havia se tornado um ponto de encontro para nós dois, um refúgio do resto do mundo.
- Ángel, eu to... com medo - assumiu ele num tom baixo e triste. Seus olhos se lançaram aos meus e eu pude ver, sentir, a dor que eles transmitiam. Bernardo se arriscou demais ao escolher vir ao meu encontro e permanecer ao meu lado. 
- Não precisa ter medo, Bernardo. - Tentei acalmá-lo. Me sentei ao lado dele na cama e o abracei.
- Ingrid, você já imaginou o que vai acontecer se Lu... aquela coisa aparecer de novo? - ele me fitou, os olhos aflitos qeriam achar alguma saida para que os dois saissem vivos. - Eu não estou preocupado comigo, mas com você. Eu já matei demais, já fiz besteiras demais... mas você não. Você é um anjo. Meu anjo.

Fiquei sem palavras, enquanto sentia meu coração acelerar um pouco. Ele balançou a cabeça e se levantou, me dando um beijo. 
- Quedarse bien, Ángel. - ele sussurrou baixo em minha orelha - Por favor, toma cuidado. Eu já irei voltar, antes que a lua venha ao seu encontro.
- Irei ficar esperando. - disse e sorri antes que ele me beijasse.

E eu realmente fiquei esperando. Três, quatro horas e nada de Bernardo voltar. Me levantei da cama, indo até a janela. Fiquei surpresa ao ver a lua. Lua azul, um fenômeno que ocorre a cada dois ou três anos. É realmente uma lua muito linda, vista por meus olhos ela parecia encantar. Vi uma forte luz clarear meu quarto, meu bracelete estava refletindo o luar, só que muito, muito mais forte. E então um vulto passou bem em minha frente, me levando ao chão.

- Da próxima vez toma mais cuidado, Bernardo. - resmunguei ao me levantar. - Bernardo? - disse após ver outro vulto passar atras de mim. Mais difuso, diferente - Qual é, não tem graça isso.
- Sinto em lhe informar, não sou o Bernardo - Disse uma boz baixa atrás de mim, uma voz rouca e cheia de amargura. A luz de meu bracelete estava muito forte, ela nunca ficava assim perto de Bernardo.

Me virei rápidamente, mas encontrei o nada. Então senti fortes braços me segurarem. A sombra dos mesmos me envolveu. E ao mesmo tempo em que senti o toque dele, pude ver o que ele queria me mostrar. Era ele, ele que matara minha família. O desgraçado que tirou meus pais de mim. Ele percebeu o meu ódio e riu. Sim, ele riu. Em seguida passou os dedos sujos em meu rosto.
- Quem é você? - perguntei.
- Sou quem você mais odeia e mais teme. - Ele murmurou próximo ao meu ouvido. - Eu vejo o ódio em seus olhos e sinto o medo em sua pele. Você criancinha, vendo eu matar um por um que você amava. Mas eu deixei uma garotinha viver. Prometi que um dia ela iria entender o por que. Adivinha? Esse dia chegou. -ele fez uma pausa e me soltou - Essa garotinha tem que morrer.

Meus olhos ficaram prata e minhas asas apareceram. Me virei e pude ver o rosto do filho da mãe. Era completamente diferente do que eu imaginava. Era belo aparentemente, mas pude ver o interior dele, onde tudo era apodrecido e frio. Um canto me chamou mais atenção, o coração, tão negro, tão escuro e morto.
Quando o servo se aproximou de mim, antes que eu me movesse, vi outro vulto rápido se por em minha frente. O cabelo negro e as roupas antigas me deram a certeza de quem era. Bernardo, me olhou, novamente a expressão de dor o inundou. Em um segundo ele estava em minha frente, em meu quarto, no outro, eu estava sozinha com o outro servo em cima de um penhasco.

domingo, 6 de junho de 2010

Asas fracas de um anjo ferido. (segunda parte)

Tayanne me puxou a noite toda para conhecer os amigos "gatos" dela. Tive de forçar sorrisos e conversar com todos eles, quando, na verdade, eu desejava estar sozinha em meu quarto com meu notebook, pesquisando mais sobre o que sou. A voz de minha mãe havia sumido a noite toda, apenas quando voltei ao meu quarto, na antiga casa que era meu atual refúgio para tudo. A voz de minha mãe soava em minha mente, a voz calma e baixa me contava tudo o que eu deveria saber sobre mim. E sobre Bernardo, sim, o monstro que aparecera em meu quarto tinha um nome afinal.

- Não ter medo dele? - disse em meu tom de voz normal, uma vez que eu estava sozinha em casa e com a luz de meu quarto ligada. Minha mãe havia dito para eu não ter medo dele? O que ela estava pensando afinal? A morte a deixara louca, só pode ser isso.

" Sim, filha. "
- a voz dela permanecia serena - "Vá dormir, já está tarde. Os anjos também dormem."
Eu não queria obedecer aquilo. Não após saber que seres como aquele só viriam ao meu encontro quando a cidade toda estivesse apagada. Todas as casas em silencio, segundo minha mãe seres como Bernardo se sentem mais a vontade com a escuridão, uma vez que eles vivem sombriamente. Mas enfim obedeci minha mãe. Apaguei a luz de meu quarto e me deitei em minha cama. Por um instante minha mente ficou vazia.

- Buuu - ouvi uma voz vir de trás de mim. Me virei e logo desejei não ter feito isso. Me preparei para gritar, mas a mão de Bernardo tapou minha boca antes que eu pudesse pedir por socorro. - Calma, calma. - A voz musical dele soou por meu quarto como uma bela melodia macabra.


Não consegui dizer nada. A tensão fluiu por minhas veias, juntamente com o medo. O olhar dele, antes de zombaria, era de angustia.


- Não precisa ter medo,
ángel. - ele sussurrou, seus olhos não me causavam mais medo. O contorno de sua pupila não era mais o vermelho de antes, era um tom de azul céu. Claro e puro. - Eu não vou te fazer mal, o contrário. Eu não sou aquele que matou sua família.
- Então quem é você? - consegui dizer, mas minha voz não passava de um sussurro baixo. - Se não quer me fazer mal, o que você quer? Por que me beijou?
Ele ficou em silencio por um minuto mas logo depois disse: - São muitas perguntas para poucas respostas. - franzi o cenho, confusa e ele percebeu isso e logo continuou - Eu não posso contar muita coisa. Meu mestre... ah que se dane... - ele parecia falar consigo mesmo.
- Tem como você acabar logo com isso e me matar?

- Matar? - ele riu - Se eu quisesse lhe matar já o teria feito a muito tempo. - ele tocou meu rosto e eu recuei um pouco - Ángel, eu venho lhe seguindo durante anos. Venho vendo seus fracassos e suas vitórias, tentando lhe manter viva.

- Como? - perguntei mais confusa ainda. Aquilo não fazia nenhum sentido. - O que você é afinal?
- Boa pergunta - ele não desviou o olhar do meu enquanto continuava - Sou um filho renegado de Lúcifer, o ser que matou sua família. Um servo dele na verdade. Nasci de um amor proibido. Meu pai, um anjo, assim como você. E minha mãe uma serva das trevas, assim posso dizer...

- Como? - o interrompi, curiosa - Como isso aconteceu, não são completamente opostos?

- E não dizem que os opostos se atraem? - ele sorriu calmamente e dessa vez eu não recuei ao toque de sua mão em meu rosto, algo dentro de mim não permitiu que eu me movesse. - Apenas um anjo é capaz de quebrar a frieza de um servo sombrio. Assim como você fez comigo.

- E-eu o que? - gaguejei olhando-o. Me sentei na cama, outra onda de sentimentos invadiu minhas veias. Um sentimento bom, que parecia vir do toque das mãos dele.

- Sentiu? - ele murmurou e eu fiz que sim com a cabeça. Ele sorriu, um lindo sorriso de alegria - Meus pais tinham razão... É a melhor sensação do mundo.
- Qual é a sensação? - Sim, eu me deixei levar. Não podia negar o que eu estava sentindo. A calma que ele me trazia, o fato que ele não me trazia medo. Ele queria me proteger e eu não podia dizer não.

- Não dá para explicar. É como se eu não fosse eu demônio. Como se meu lado anjo voltasse, viesse mais forte. Como se o frio e o vazio dentro de mim fosse dissipado e no lugar uma chama me tomasse. Um...

- Amor incondicional - fitei o chão ao falar, eu senti, mais uma vez, o toque de seus lábios nos meus. E dessa vez não recuei, muito pelo contrário.


O resto da noite foi calmo. Bernardo continuou ao meu lado até que eu dormisse. Ele me confessou os planos dos outros quanto a mim. E também o quão enrolado nessa história ele estava. As consequencias não eram nada boas, mortes e sombras tomariam pouco a pouco o resto da humanidade. Mas ao menos eu não estava sozinha. Agora, finalmente, eu tinha um motivo pelo qual lutar.

sábado, 5 de junho de 2010

Asas fracas de um anjo ferido. (primeira parte)

Eu era uma garota normal com uma vida tranquila e completa, meus pais eram legais. Chatos, mas eles só queriam o meu bem. Mas eu não percebia isso, quando finalmente percebi o que eles tentavam fazer por mim era tarde demais. O estranho monstro no meio de minha sala já havia feito sua tarefa. Meus pais estavam caídos e sangrando muito, sem batimentos cardíacos ou qualquer outro sinal de vida. Foi estranho, mas ele me deixou viva. O monstro se aproximou de mim, olhando meus olhos e logo depois correndo os olhos por meu corpo até um bracelete antigo que eu usava, o objeto que minha mãe me dera dois dias antes daquele horrível encontro com a morte. Ela havia dito, com seu tom suave como pétalas de rosa: " Isto irá lhe proteger de qualquer coisa.", de inicio eu não entendi, assim como não entendi o motivo daquele ser me deixar viva. Mas ele disse a mesma coisa que minha mãe, quando eu perguntei o por que " Quando for a hora você vai entender". O bracelete soltou faiscas fortes e claras o bastante para iluminar a sala de minha casa, por completo. Apenas anos após esse acontecimento, aos meus vinte anos, eu fui entender. Tudo aconteceu de repente.
Eu estava em meu antigo quarto, na casa onde meus pais foram mortos, quando vi um vulto imenso e difuso. Foi estranho mas eu não senti medo. O bracelete - que eu nunca mais havia tirado do braço - brilhou novamente e finalmente pude ver o rosto da mesma criatura. Era mais sombrio do que eu imaginava. E ao contrário do que eu pensava, era humano.
Seus olhos mostravam quão hostil era. A cor branca de sua pupila e o contorno vermelho da mesa causava arrepios em minha espinha. Seu traje completamente fora de época me deixou confusa, assim como o fato dele não possuir batimentos cardíacos. Me espantei quando sua mão esquerda foi levada a minha cintura, enquanto sua mão direita tocou meu rosto suavemente. Seu toque era quente e frio ao mesmo tempo. Como se sua pele fosse quente para esconder o quão fria era sua alma. Recuei um passo, mas de nada adiantou, ele foi levado junto com meu corpo. Então como se fossemos namorados, ele me beijou e fui tomada por uma sensação de ódio. Foi onde tudo desencadeou de vez.
Senti minhas costas rasgarem um pouco, como se um corte enorme tivesse sido feito em minha pele. E quando virei meu rosto, vi duas enormes asas cor de prata. Então, em um outro vulto ele sumiu. Meu bracelete, que irradiava um luz forte, passou a irradiar uma luz fraca, que assim foi tomando meu corpo. Em frente a mim, um espelho mostrava tudo o que eu me transformara. Me aproximei mais e levei minhas mãos para trás, tocando de leve minhas asas de anjo. Fixei meu olhar no espelho e vi que minhas pupilas, invés de castanhas estavam prata, tão prata que quase não conseguia vê-las em contraste com o branco. Fechei meus olhos por instantes e pude ouvir os passos lentos e calmos de Tayanne, subindo lentamente as escadas. Minha amiga deve ter ouvido algo. Desejei que eu voltasse a ser humana novamente. E quando abri meus olhos novamente e me olhei no espelho, as asas haviam sumido e meus olhos estavam na cor natural.
- Ingrid? - Olhei Tay, entrando no quarto e sorrindo para mim - Está tudo bem?

- S-sim - gaguejei um pouco e retribui o sorriso de minha amiga. - Só acabei de... acordar. - Esperei esperançosamente que ela acreditasse nisso.
- Hum... Bom, só vim saber isso mesmo. - Ela voltou a porta e me mandou um beijo - Até a festa.

Em minha mente ouvi a voz de minha mãe dizendo " Bem vinda a esse novo mundo, meu anjo". E após ouvir a voz dela, senti uma nova onda de sentimentos distintos invadir meu corpo. Então era isso, eu estava fadada a um destino diferente ao dos demais. Meu destino imortal, eternamente um anjo. E o que isso realmente quer dizer?