Tayanne me puxou a noite toda para conhecer os amigos "gatos" dela. Tive de forçar sorrisos e conversar com todos eles, quando, na verdade, eu desejava estar sozinha em meu quarto com meu notebook, pesquisando mais sobre o que sou. A voz de minha mãe havia sumido a noite toda, apenas quando voltei ao meu quarto, na antiga casa que era meu atual refúgio para tudo. A voz de minha mãe soava em minha mente, a voz calma e baixa me contava tudo o que eu deveria saber sobre mim. E sobre Bernardo, sim, o monstro que aparecera em meu quarto tinha um nome afinal.
- Não ter medo dele? - disse em meu tom de voz normal, uma vez que eu estava sozinha em casa e com a luz de meu quarto ligada. Minha mãe havia dito para eu não ter medo dele? O que ela estava pensando afinal? A morte a deixara louca, só pode ser isso.
" Sim, filha. " - a voz dela permanecia serena - "Vá dormir, já está tarde. Os anjos também dormem." Eu não queria obedecer aquilo. Não após saber que seres como aquele só viriam ao meu encontro quando a cidade toda estivesse apagada. Todas as casas em silencio, segundo minha mãe seres como Bernardo se sentem mais a vontade com a escuridão, uma vez que eles vivem sombriamente. Mas enfim obedeci minha mãe. Apaguei a luz de meu quarto e me deitei em minha cama. Por um instante minha mente ficou vazia.
- Buuu - ouvi uma voz vir de trás de mim. Me virei e logo desejei não ter feito isso. Me preparei para gritar, mas a mão de Bernardo tapou minha boca antes que eu pudesse pedir por socorro. - Calma, calma. - A voz musical dele soou por meu quarto como uma bela melodia macabra.
Não consegui dizer nada. A tensão fluiu por minhas veias, juntamente com o medo. O olhar dele, antes de zombaria, era de angustia.
- Não precisa ter medo, ángel. - ele sussurrou, seus olhos não me causavam mais medo. O contorno de sua pupila não era mais o vermelho de antes, era um tom de azul céu. Claro e puro. - Eu não vou te fazer mal, o contrário. Eu não sou aquele que matou sua família.
- Então quem é você? - consegui dizer, mas minha voz não passava de um sussurro baixo. - Se não quer me fazer mal, o que você quer? Por que me beijou?
Ele ficou em silencio por um minuto mas logo depois disse: - São muitas perguntas para poucas respostas. - franzi o cenho, confusa e ele percebeu isso e logo continuou - Eu não posso contar muita coisa. Meu mestre... ah que se dane... - ele parecia falar consigo mesmo.
- Tem como você acabar logo com isso e me matar?
- Matar? - ele riu - Se eu quisesse lhe matar já o teria feito a muito tempo. - ele tocou meu rosto e eu recuei um pouco - Ángel, eu venho lhe seguindo durante anos. Venho vendo seus fracassos e suas vitórias, tentando lhe manter viva.
- Como? - perguntei mais confusa ainda. Aquilo não fazia nenhum sentido. - O que você é afinal?
- Boa pergunta - ele não desviou o olhar do meu enquanto continuava - Sou um filho renegado de Lúcifer, o ser que matou sua família. Um servo dele na verdade. Nasci de um amor proibido. Meu pai, um anjo, assim como você. E minha mãe uma serva das trevas, assim posso dizer...
- Como? - o interrompi, curiosa - Como isso aconteceu, não são completamente opostos?
- E não dizem que os opostos se atraem? - ele sorriu calmamente e dessa vez eu não recuei ao toque de sua mão em meu rosto, algo dentro de mim não permitiu que eu me movesse. - Apenas um anjo é capaz de quebrar a frieza de um servo sombrio. Assim como você fez comigo.
- E-eu o que? - gaguejei olhando-o. Me sentei na cama, outra onda de sentimentos invadiu minhas veias. Um sentimento bom, que parecia vir do toque das mãos dele.
- Sentiu? - ele murmurou e eu fiz que sim com a cabeça. Ele sorriu, um lindo sorriso de alegria - Meus pais tinham razão... É a melhor sensação do mundo.
- Qual é a sensação? - Sim, eu me deixei levar. Não podia negar o que eu estava sentindo. A calma que ele me trazia, o fato que ele não me trazia medo. Ele queria me proteger e eu não podia dizer não.
- Não dá para explicar. É como se eu não fosse eu demônio. Como se meu lado anjo voltasse, viesse mais forte. Como se o frio e o vazio dentro de mim fosse dissipado e no lugar uma chama me tomasse. Um...
- Amor incondicional - fitei o chão ao falar, eu senti, mais uma vez, o toque de seus lábios nos meus. E dessa vez não recuei, muito pelo contrário.
O resto da noite foi calmo. Bernardo continuou ao meu lado até que eu dormisse. Ele me confessou os planos dos outros quanto a mim. E também o quão enrolado nessa história ele estava. As consequencias não eram nada boas, mortes e sombras tomariam pouco a pouco o resto da humanidade. Mas ao menos eu não estava sozinha. Agora, finalmente, eu tinha um motivo pelo qual lutar.

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