quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Um mais um.

Ele mora longe dos pais, carrega uma bagagem considerável pelas voltas que a vida dá. Vive em translação. Seu sol? O começo de toda emoção. Enquanto ela, que carrega sua mala vazia, quer enchê-la com o que a conquista pelo caminho, seja um objeto ou uma lembrança boa. 
Apesar de se denominar uma ilha de difícil localização, está mais acessível do que aparenta, sendo assim para boas conversas e novas presenças. Ela é coração, para ele pura comoção. 
Ele louco por um novo recomeço em algum novo lugar. Ela em busca de um lar, não quer apenas ficar, quer seu bem-estar. Ele procura um motivo que fará valer todo esforço. Ela quer mudar os móveis de lugar, mudar a si para transformar o que está ao seu redor. Mas ambos buscam encher os ares de sentimentos e momentos a serem lembrados. Ele toca violão. Ela escreve sobre amor.
Ele a toca. Ela o descreve.
Enquanto para um bastam as respostas, para o outro o que lhe impulsiona são as altas apostas. Sonhos altos. Felicidade em pequenos momentos. Pequenos grandes saltos. Não estar em constante confinamento. Ser livre. Em eterna busca de um equilíbrio entre o racional e o espontâneo, desprezam algo apenas momentâneo. Ele quer fazer. Ela deixa acontecer.

Ela deseja inspiração, ele gosta de inspirar, deixar no ar as razões para ela continuar a sonhar. Apesar de peças diferentes, se mostram contentes com a realidade aparente.
O sorrir dela, impulsiona seu ritmo cardíaco.
No abraço dele, a fuga do perigo.
Talvez mais que um amigo.
Um mais um, são dois sorrisos, que em busca de abrigo se entregaram ao deleito de ter alguém em quem confiar, nas diferenças uma chance de mostrar e reconhecer que nenhum quebra-cabeça se completa com peças iguais. E que para entrar nesse mar, não se pode ter medo de navegar. 
Ela tão presa, ele tão solto.
Nos dias ruins, um lembra o outro que nenhum mar é sempre revolto.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Alma em pele de calma.

 Ei, o que pensa que está fazendo aqui a essa hora da noite? Já não bastava as horas que perdi, a comida que quase queimei e o sorriso idiota que estampei naquele dia após conversas no telefone? Você tem mesmo que invadir e atrapalhar meu sono agora? Olha só, meu bem, levante ao menos a bunda da sua cama e venha para a minha. Pegue o carro, o ônibus, o trem, a barca, o avião que seja. Mas vem. Telepatia não é comigo. Isso já é abuso.

 Sabe do que mais te acuso? Invasão de propriedade. Na verdade, você pareceu não se importar de roubar nada material. Mas não poderia sair de mãos abanando. Além de escancarar a porta, mudar os móveis de lugar, teve de levar todo bom-senso que em mim deveria habitar. Deixou teu cheiro em meus lençóis, seu gosto em cada parte de mim. Aqui, entre nós, esse detalhe me faz sorrir. Mas, da próxima vez, só para lhe avisar, a porta estará fechada, mas sempre haverá uma janela aberta. Basta ter coragem para pular.

 Exagero da minha parte? Amigo, se assim fosse, jamais perderia meu tempo limpando a bagunça feita pela tua presença repentina.

 Afinal, tudo caminhava do jeito confiável. Você, eu e risadas regidas por piadas. Tudo estava bem. Em paz. Então, você muda a rotação, dita o ritmo, toma a direção. E eu que jurava não sentir sua ausência, me pego pensando em você com frequência. 

 Seu riso, sua essência. 

 Você bagunça tudo. Deveria ter calma, disse que haveria. Você sabe, sou toda alma. Você virou o mundo de cabeça para baixo. Repito, mais umas três vezes em silêncio: você não tinha esse direito. 

 Olha, meu bem, você afirmou que nos daríamos bem, mas não imaginei que esse seria o preço. Eu não queria, nem estava preparada para, meu peito batucando mais que a Apoteose no carnaval, muito menos esse borboletário fazendo cócegas na minha barriga quando sua voz adentra meus sentidos.

 Se há recíproca, diga agora ou vá embora.

 Você tirou a gravidade e cada vez estou mais alto. Posso confiar tanto assim em você? Se eu cair, eu atingirei o chão ou terei seus braços me segurando? Apesar de todo o receio que escondo, apesar de tudo estar de ponta cabeça, confesso estar rendida. Me cativa essa forma de enxergar.
 Ainda não é amar, nem perto. Mas quem dirá? 
 Não queria ser a primeira a admitir, mas sei que voltar não é opção. Está claro quem eu quero que me abrace no frio e reclame do calor comigo. Sei, mesmo que não queira saber, que é você que faz todo sentido nessa falta de sentido. 

 E você?

 Mudará o caminho ou embarca nessa comigo?


(Para ouvir enquanto lê ♥)





sábado, 12 de setembro de 2015

O que toda mulher deveria saber...

Sorria. Acene. Fale baixo. Palavrões são feios. Assobiar é coisa de homem. Sente-se direito, pernas cruzadas. Boca fechada. Use roupas comportadas. Aja como uma dama. Em meio a tantas ordens, onde está a que diz para ser feliz?
Façamos assim, vamos nos permitir.
Então vai, se solta, usa tua sensualidade. Nem tudo é beleza. É conquista. Nem tudo é corpo, estereótipos. Toda mulher tem seus encantos. A sensualidade vem do natural, vem das brincadeiras, do conforto, dos sussurros, da ausência de camadas de roupas e com ela a naturalidade e leveza do momento. Quem quer alguém que pense sempre em tudo? Que obedeça a todos os padrões 
Às vezes pensar demais atrapalha o fazer. Assim não há prazer.
Não digo que o melhor está em sua pele exposta, o que expresso vai além. Peço: livre-se das camadas de medos, de preceitos, vergonhas e esqueça os estereótipos que são impostos a ti. Faça o que lhe faz bem. Livre-se do que lhe pesa a alma.
Vamos lá, menina, olhe a sua volta. É tua essa metamorfose, te solta. Prende o cabelo, ou o deixa solto, ergue a sobrancelha, esboce aquele sorriso cúmplice, aquele sorriso que define o que deseja, morde o lábio, mostre as garras... olhe. Não desvie o olhar, mergulha nessa imensidão que é o outro. Mergulha tua alma. Deixa no chão o comportamento de mocinha. Agora você é mulher, você manda, você comanda. Mostre pelo que veio e não se arrependa um único minuto. Mostre-se, gata. Não se force a ser tão recatada. Revele seu lado mais ousado. 
Isso não é, nem nunca foi, pecado.
Essa escolha é tua, faz o que desejas. A única que decide é você. A tua mudança deve vir de dentro.
Mas escolha para quem se mostrará por completo, nem todos merecem participar deste eclipse solar. Nem todos tendem a apreciar o poder guardado em um simples olhar, este que provoca, camufla, mostra e aposta que contra esse seu lado feroz, tudo ao redor perde a voz.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A procura de um lar.

Devagar, sem passos largos, o coração volta para casa. Com a audácia de um sorriso renovado. Aparência saudável e a calma inabalável. Volta ao compassado ritmo, nesse tempo que não passa, mas sádico, se arrasta. Apesar de ter acabado de chegar de onde brisas eram furacões, esse meu coração não perde o costume de esperar.
Espera por alguém. Por ti, você mesmo, sentado no sofá, sem nem mesmo pensar que poderia esbarrar em alguém com tanta coragem de se entregar.
E ele espera. 
Seja uma surpresa no começo da noite, uma visita que derrube essa estabilidade, ou que venha para matar a vontade. Pois se vem, abre as portas e marca presença nesse lugar tão cansado de ausências. Marca com sorrisos e sentidos, voz e arrepios. Se não vem, ou não tem a intenção de ficar, não dê esperanças, dê meia volta. Essa casa não mais aguenta o descompasso e o cansaço de esperar, de ansiar por algo que não almeja ficar.
Mas, no fundo, sabe que um dia virá. 
Quando chegar, fica por uma hora ou um dia. Fica o quanto eu te fizer ficar, prometo nunca parar de tentar. Esse coração é teimoso.
Mesmo que demore. Mesmo que dê mais voltas. Amores se encontram todos os dias, entre as curvas, becos e cafés. 
Mas dessa vez o coração volta, pelo longo caminho, como um barco que reencontra seu porto no mar. Ele volta para casa, mas sem ainda encontrar seu lar.
E então, ele te espera chegar para mudar tudo e recolocar em seu devido lugar, segundo o seu jeito de amar.