quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Alma em pele de calma.

 Ei, o que pensa que está fazendo aqui a essa hora da noite? Já não bastava as horas que perdi, a comida que quase queimei e o sorriso idiota que estampei naquele dia após conversas no telefone? Você tem mesmo que invadir e atrapalhar meu sono agora? Olha só, meu bem, levante ao menos a bunda da sua cama e venha para a minha. Pegue o carro, o ônibus, o trem, a barca, o avião que seja. Mas vem. Telepatia não é comigo. Isso já é abuso.

 Sabe do que mais te acuso? Invasão de propriedade. Na verdade, você pareceu não se importar de roubar nada material. Mas não poderia sair de mãos abanando. Além de escancarar a porta, mudar os móveis de lugar, teve de levar todo bom-senso que em mim deveria habitar. Deixou teu cheiro em meus lençóis, seu gosto em cada parte de mim. Aqui, entre nós, esse detalhe me faz sorrir. Mas, da próxima vez, só para lhe avisar, a porta estará fechada, mas sempre haverá uma janela aberta. Basta ter coragem para pular.

 Exagero da minha parte? Amigo, se assim fosse, jamais perderia meu tempo limpando a bagunça feita pela tua presença repentina.

 Afinal, tudo caminhava do jeito confiável. Você, eu e risadas regidas por piadas. Tudo estava bem. Em paz. Então, você muda a rotação, dita o ritmo, toma a direção. E eu que jurava não sentir sua ausência, me pego pensando em você com frequência. 

 Seu riso, sua essência. 

 Você bagunça tudo. Deveria ter calma, disse que haveria. Você sabe, sou toda alma. Você virou o mundo de cabeça para baixo. Repito, mais umas três vezes em silêncio: você não tinha esse direito. 

 Olha, meu bem, você afirmou que nos daríamos bem, mas não imaginei que esse seria o preço. Eu não queria, nem estava preparada para, meu peito batucando mais que a Apoteose no carnaval, muito menos esse borboletário fazendo cócegas na minha barriga quando sua voz adentra meus sentidos.

 Se há recíproca, diga agora ou vá embora.

 Você tirou a gravidade e cada vez estou mais alto. Posso confiar tanto assim em você? Se eu cair, eu atingirei o chão ou terei seus braços me segurando? Apesar de todo o receio que escondo, apesar de tudo estar de ponta cabeça, confesso estar rendida. Me cativa essa forma de enxergar.
 Ainda não é amar, nem perto. Mas quem dirá? 
 Não queria ser a primeira a admitir, mas sei que voltar não é opção. Está claro quem eu quero que me abrace no frio e reclame do calor comigo. Sei, mesmo que não queira saber, que é você que faz todo sentido nessa falta de sentido. 

 E você?

 Mudará o caminho ou embarca nessa comigo?


(Para ouvir enquanto lê ♥)





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